Por Profª Luciana Alves

14 de Novembro de 2018

 

          Por que um dia da Consciência Negra?

 

Geralmente, quando chega o mês de novembro, pululam nas redes sociais comentários a respeito do dia da Consciência Negra, feriado em alguns estados e data comemorativa noutros. Dentre esses comentários, destacam-se posturas do tipo: “não seria o caso de celebrarmos o dia da consciência humana, já que somos todos iguais?” ou “se existe o dia da Consciência negra, deveria existir também o da Consciência Branca”. É dialogando justamente com esses dois argumentos que escrevo este texto.

No Brasil, discutimos pouco a respeito do que foi a escravidão e sobre as marcas que o processo deixou na vida de toda a nação: um legado de pobreza para ex-escravizados, enquanto se garantia a plena cidadania para brancos abastados. Nesse processo, foram forjados estereótipos de inferioridade expressos em avaliações negativas a respeito de corpos, índole e capacidades dos negros.

Diante desses estereótipos, a luta dos negros envolveu afirmar-se positivamente frente à inferioridade que lhes foi atribuída. Assim, nasce um movimento de orientação internacional baseado na negritudè francesa, nos embates pelos direitos civis norteamericanos, na luta contra o apartheid, na África do Sul, e na Consciência Negra brasileira. Esses movimentos têm em comum o objetivo de reconstruir a identidade negra depreciada pelo racismo, e afirmá-la com orgulho.

Percebe-se, assim, que a Consciência Negra não é mera data comemorativa, é a expressão de resistência de um povo que experimentou e ainda experimenta situações desfavoráveis apenas por ser como é. Não faz sentido, portanto, pensarmos no dia da consciência branca quando analisamos os fatos assim, numa perspectiva histórica. Podemos nos indagar “quando brancos afirmaram uma identidade altiva e poderosa ao longo da história?”, a resposta trará à memória momentos de extrema violência, como o Nazismo, a Ku Kux Klan, o apartheid. A resistência negra que se comemora em datas como o 20 de novembro é uma resposta a essas violências e só por isso tem razão de existir.

É na mesma chave histórica que a tal “consciência humana” não se sustenta como argumento. Enquanto falamos em consciência humana, os indicadores socioeconômicos de negros e brancos revelam desigualdades marcantes entre os dois grupos, indicando que embora não hajam, de fato, raças biológicas, há um processo social que limita as oportunidades de vida de pessoas negras. Seja no acesso à educação, ao lazer, à carteira de trabalho assinada, ao saneamento básico, moradia ou qualquer outro indicador de bem-estar considerado, negros aparecem em condição de desvantagem. Desse modo, falar em Consciência Negra é uma forma de reafirmar o compromisso da sociedade brasileira com o combate a essas desigualdades que têm sua sustentação na cor da pele de nossos cidadãos.

Que tal todos nós, brancos, indígenas, asiáticos nos juntarmos aos negros na luta antirracista, celebrando a data como um emblema de nosso compromisso com a igualdade? Apenas assim, valorizando as formas de resistência às injustiças, é que poderemos construir um país melhor para todos nós. Talvez alcancemos um estágio de igualdade tal em que não precisaremos mais lutar para que haja uma consciência negra que tenha que afirmar-se cotidianamente contra o racismo. Talvez, mesmo depois de alcançarmos esse estágio, façamos a opção de continuar celebrando essa conquista no dia 20 de novembro para que nunca nos esqueçamos. Por enquanto, seguimos convidando aqueles que não se identificam como negros para partilharem a luta conosco, não no dia da “consciência branca”, mas num dia em que brancos se comprometem com o combate ao racismo. Vamos juntos?

 

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